Sunday, August 20, 2006

A casa no deserto



Hoje acordei novamente numa casa que não é a minha.
Todos os dias caminho para ela sem saber porquê,
Só sei que não me pertence.
Nela tudo me é estranho.
As paredes, a mobília, o meu quarto, as pessoas que nela habitam..
Quantas vezes me pergunto porque fui escolhida para a habitar
Mas continuo sem resposta...
Não lhe reconheço o sentimento de um lar.
Esse está mais longe, ainda não sei onde, mas estou perto de o encontrar.
Vou continuar a vaguear pelo deserto inóspito onde o passado se torna coreografo de todas as minhas emoções.
Vagueio e vagueio, continuo a caminhar com esforço.
Por vezes avisto uma casa no horizonte.
Será uma miragem?
Um esboço reconfortante de uma imagem que a minha vontade teima em idealizar?
E se porventura for mesmo a minha casa?
Só peço que as minhas pernas ganhem força para a alcançar.
Será o meu lar?
Quem lá mora?
Será que te encontro no seu interior?
Será que me é permitido entrar?
Serei eu acolhida de braços abertos?
Porque tenho medo?
Porque tanto receio?
Encontrarei lá dentro a infância que não vivi?
Sei que cresci rápido demais por isso desejo encontrar o paradeiro do meu brinquedo favorito que ainda aguardo receber.
Estará no seu interior o amor que foi negado?
Será lá que encontro o meu mundo?
Quero refugiar-me nessa casa onde as janelas são os teus meigos olhos castanhos que me fixam,
Onde o tecto sustenta a lua e toda a via-láctea
E as paredes são os teus fortes ombros que me erguem…
Vou escrever...
Vou escrever enquanto não me deres um sinal teu...
Uma prova de que em algum lugar ainda não me esqueceste, e ainda me procuras
Se ao menos fosses tu a sombra que emoldura essa porta…
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Alma Gémea


Que nunca se me acabem as folhas de papel e a tinta da caneta,
pois são nelas que te amo de forma livre e sem qualquer obstáculo.
O meu amor por ti é do tamanho de todas as folhas em branco dos livros da biblioteca onde escrevo e te chamo.
As suas folhas rapidamente se poderiam encher com a história do nosso amor.

Não sei de onde surgiste,
Não sei como te aproximaste,
Não sei como me arrebataste.
Sei apenas que me proporcionaste momentos inesquecíveis e memoráveis.
Nesta biblioteca o meu silêncio é ouvido.
Nela escrevo com as lágrimas que escorrem pelo meu rosto.
É nela que me refugio, que me escondo e que me encontro contigo.
Esforço-me para que não percebas a minha fraqueza, a minha dor, a minha angústia.
E as saudades.. ai as saudades que me definham a alma e me destroem o peito.
Fico sem jeito só de pronunciar o teu nome!
Abrigo-me na poesia que é a minha única confidente, e sábia amiga.
Ela está sempre presente e tem a enorme capacidade de esvaziar o peso deste coração que deixaste sofrido e amargo.
Preciso do teu sorriso de novo...
Preciso da tua gargalhada...
Preciso de cruzar como teu olhar sedutor e ouvir as tuas palavras afiadas...
Preciso da minha luz de volta...
Sinto-me vela apagada cujo pavio chama alguma conseguirá reacender.
A biblioteca é imensamente escura,
Já não tem as cores do arco-íris, nem o túnel de luz prateada que se acendia com o teu toque.
Aqui posso gritar bem alto que sinto a tua falta... que te queria de novo do meu lado...
Os ponteiros do relógio teimam em rodar no mesmo sentido.
Quem me dera voltar atrás no tempo para te dar uma abraço bem apertado.
Por onde andaste toda a vida?
Onde se escondeu o tempo que nos fugiu por entre os dedos?
Onde anda o fogo deste corpo que uso agora quase cadáver?
Que fizeste com a outra metade da minha alma?
Porque mostras-te que fazias parte do mesmo mundo que o meu, e partiste?
Vagueio agora neste espaço pardacento onde os olhos estão nas palmas das mãos, ansiando por tocar em teu corpo e em trazê-lo para perto do meu... de novo...
Apesar de distantes continuo a sentir todos os dias a tua presença de forma muito intensa.
Isto explica-se pelo facto de nos termos unidos não só pelo corpo, mas também pela alma.

Sabia que te ia conhecer,
Descobri que te tinha deixar partir,
Percebi que não estamos destinados a ficar juntos nesta vida,
Vemo-nos na próxima....

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Navio naufragado


Nos minutos perdidos da noite invades sem permissão os meus pensamentos com centenas de imagens familiares.
Aos poucos e poucos a tua reprodução torna-se completa e consigo definir de novo todos os traços, todos os sinais do teu rosto.
Consigo sentir de novo o calor, o cheiro, e todos os contornos do teu corpo como se desfolhasse um álbum fotográfico de sentidos.
Percorro-te como se fosse marinheira de alto mar conhecedora de todas as marés.
Mas o mar já não ruge como outrora, já não se agita de forma alvoraçada...
As ondas perderam o turbilhão...
O mar hoje está calmo, demasiadamente calmo, quase sem vida... não se agita
Sou agora navio naufragado...
Navio sem rumo....
Perdida na fraca ondulação revivo todos os momentos de prazer que ficaram gravados no hortizonte das nossas memórias.
Ainda tenho o sabor salgado dos teus beijos na minha boca.
O doce sopro das tuas palavras já não não move a nossa embarcação.
O toque mágico do teu abraço já não embala o nosso amor.

A âncora foi lançada e só será de novo içada quando voltares nas ondas do mar e me devolveres o mapa do meu coração.

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