Saturday, January 21, 2006

Pergunta-me




Pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas a ave magoada

que se queda na árvore do meu sangue
Pergunta-me se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

Pergunta-me
se te voltei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu que reunias
pedaços do meu po e mar
e construindo a folha rasgada
na minha mão descrente

Qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo
sem te responder
saibas o que te quero dizer

in Mia Couto

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